Segredo
Olho à minha volta e lembro por onde andei. Se me olhasse de fora, com olhos de estranho, veria uma mulher cheia de segredos. Mas os segredos são canções inventadas meu bem! São ficção! Não lhe dizem nada. Falam de coisas que ninguém pode saber. Não tem nada trancado, estão á mostra. Indecifráveis. Quando entraste pela sala me flagrou mirando a janela, o desenho das minhas costas no vestido solto, as mãos colocadas no corpo inerte e aquela tensão absorta no mundo. Não disseste nada para não afugentar meu segredo. Ele é arisco, sabe! Tem medo de gente. Desconfia que ninguém poderá entendê-lo. E não. Mas o teu olhar sobre mim, os tornozelos meio tortos, pés descalços, cabelos em desalinho. E aquela sensação do dia que já está por terminar. Quase ouvi o que pensaste à espreita do meu silêncio. Tinha um breve sussurro, um gemido. Era o calor. Ouvi sim que queria me abraçar, que me cuidaria. Tuas mãos ainda quase. Mesmo assim, eu ali, sozinha e as minhas coisas. Você não quis interromper. Também senti a tua presença porque logo ali a tua respiração, baixa, também segredou comigo. Virei o rosto devagar e te olhei nos olhos, fundo. Sorri morna e corri para os teus braços. Nada como estar em casa.
GMM
08.01.07
3h19




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